Manteiga
ou margarina? Gorduras boas ou gorduras más? Esta dúvida assola uma boa
parte da população e com razão uma vez que, mesmo entre os
profissionais de saúde, a opinião não é consensual e cada um defende a
“sua dama”.
A favor da manteiga está o lado
tradicional - “a nossa avó nem sabia o que era a margarina” - e a
recente visão mais benevolente em relação à ligação entre as gorduras
saturadas e a doença cardiovascular. Já a margarina (designemos por
cremes vegetais as versões para barrar) coloca em campo todo um alegado
manancial de virtudes desde as gorduras polinsaturadas aos “ómega 3” não
esquecendo os esteróis que “reduzem activamente o colesterol”.
No meio desta acalorada discussão muitas
vezes se esquece que em Portugal existe uma opção para acompanhar o pão
que é mais tradicional e potencialmente mais benéfica que ambas, quer
na nossa saúde quer na nossa economia. Mas como este não é um artigo
sobre o azeite, vamos tentar responder de forma concreta à pergunta que
se impõe: manteiga ou creme vegetal?
Do ponto de vista quantitativo, quer a
manteiga, quer os cremes vegetais nas suas versões originais apresentam
um valor calórico (600 a 750kcal/100g) e uma percentagem de gordura (70 a
80%) extremamente elevados, o que desde logo indica que a opção pelas
suas vertentes magras e light (onde estes valores descem para metade) é
uma mudança positiva.
Já no tipo de gordura a situação não é
tão idêntica. Sendo a manteiga mais rica em colesterol e em ácidos
gordos saturados e os cremes vegetais nos mono e polinsaturados a
conclusão inicial seria que a opção por um creme vegetal traria um maior
benefício. E realmente traria se estes cremes vegetais não tivessem
tido durante vários anos uma grande quantidade de ácidos gordos trans,
que - simplificando a explicação - são os “piores de todos” no que diz
respeito à saúde cardiovascular. Pois bem, hoje os tempos são outros e é
curioso constatar que a indústria das margarinas fez um esforço no
sentido de eliminar os trans dos seus produtos, mas estes mesmos ácidos
gordos continuam presentes na manteiga (em muito menor quantidade do que
chegaram a estar nas margarinas, é certo), até porque existem
naturalmente no leite.
Ainda assim, é interessante verificar
que a evidência científica não demonstra irrefutavelmente que a
substituição da manteiga por creme vegetais traga consigo vantagens de
grande magnitude do ponto de vista cardiovascular, não se podendo dizer o
mesmo quando falamos de outra categoria de cremes vegetais: os que
possuem fitoesteróis, que reduzem a absorção de colesterol a nível
intestinal e são moderadamente eficazes na redução dos níveis de
colesterol total (cerca de 6% em média) e do “mau” colesterol (8,5%),
tendo um efeito adicional mesmo em indivíduos que já tomam estatinas.
Com isto, podemos afirmar que os cremes
vegetais com esteróis podem ser uma estratégia válida para quem precisa
de diminuir os seus valores de colesterol, desde que a sua ingestão seja
diária e não um “SOS” em refeições com fritos, enchidos, queijos gordos
e outros inimigos dos nossos níveis de colesterol.
Mas então serão só vantagens nesta troca?
Em primeiro lugar, há que reconhecer que estamos a falar de efeitos muito moderados e apenas nos níveis de colesterol sanguíneo, existindo uma necessidade de investigar mais sobre o efeito destes produtos em outros indicadores de saúde que não as modificações no colesterol. Ultimamente também se tem colocado em causa se os elevados valores circulantes de esteróis e estanóis derivados destes produtos não contribuem eles próprios para aumentar o risco de doenças cardiovasculares apesar de serem eficazes na diminuição dos níveis de LDL. A este nível parece não haver razão para alarme e, em boa verdade, a comunicação na área da nutrição e alimentação precisa, acima de tudo, de ser clarificadora pois atravessamos uma fase em que um alimento passa de herói a vilão num prazo de dias e alguma coisa temos de comer!
Por isso, de modo claro e objectivo, a
mudança de uma manteiga “normal” para uma manteiga magra sem sal é
positiva, sendo ainda mais positiva a sua mudança para um creme vegetal
também ele magro e eventualmente com fitoesteróis caso tenha colesterol
elevado.
Se tudo são vantagens? Logicamente que não, mas encontra algo na vida que assim o seja?
Em resumo:
- Se gosta de manteiga e só a ingere em pequena quantidade no seu pãozinho ao pequeno-almoço, então continue. A magnitude expectável do efeito da mudança não compensa o fim desse pequeno prazer diário;
- Se tem colesterol elevado e é realmente adepto de
manteiga ao ponto de a consumir várias vezes por dia, então está na hora
de pensar em trocá-la por um creme vegetal, se possível magro ou light e
com esteróis vegetais;
- Ah! E não se esqueça do azeite…
Fonte: Público
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